Pinus. Foto: Berneck.

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COVID-19 no setor florestal

A atual crise social, política e econômica causada pela pandemia do novo coronavírus tem impactos em todos os setores da economia e da sociedade civil

Nesta reportagem especial, conversamos com diversas renomadas empresas do setor para traçar um pano – rama das possíveis consequências deste cenário para o segmento florestal brasileiro – e mundial.

Desde que foi detectado na província de Wuhan, na China, o novo coronavírus (Covid-19, abreviação de Coronavirus Disease/2019) vem preocupando especialistas médicos, governantes, investidores e a sociedade civil como um todo em praticamente todos os países do mundo. Em todo o planeta, instituições de saúde recomendam medidas de distanciamento social que vêm levando à paralisação temporária de diversas atividades econômicas, do varejo à indústria.

No Brasil, após o surgimento dos primeiros casos de transmissão comunitária do vírus, diversos estados e municípios já adotaram medidas de isolamento social recomendadas pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora a prioridade no momento seja minimizar as taxas de contágio, principalmente dos chamados grupos de risco (idosos e pessoas com problemas prévios de saúde), há um grande debate acerca de quais atividades devem ser paralisadas – e quais são essenciais para o funcionamento do país.

Neste contexto, o setor florestal ganha especial relevância por se tratar de um segmento absolutamente vital para a sociedade. Por isso, as empresas do setor vêm adotando todas as medidas possíveis para reduzir o contágio ao mesmo tempo em que mantêm a produção para que o Brasil permaneça abastecido de todos os produtos necessários.

“O setor de árvores cultiva – das vem buscando o equilíbrio certo entre minimizar os efeitos devastadores da Covid-19 e garantir que os produtos que saem das suas fábricas espalhadas em quase todos os Estados brasileiros cheguem aos hospitais e às residências onde são fundamentais, ao mesmo tempo que toma atitudes firmes para garantir a saúde dos colaboradores”, comunicou Paulo Hartung, presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá).

Sem produtos derivados de florestas plantadas, em especial as embalagens e produtos de higiene como papel higiênico, não há como o país manter supermercados, farmácias e serviços essenciais abastecidos e ativos, especialmente neste momento de alta demanda por alimentos, remédios e mercadorias como o papel higiênico. Por isso, as empresas florestais têm colaborado com as medidas e diretrizes dos poderes federal, estadual e municipal para manter fábricas funcionando mesmo com a eventual redução da mão de obra.

De fato, a grande resiliência do setor brasileiro de florestas plantadas já ficou comprovada em crises anteriores que abalaram fortemente o mercado, mas que foram superadas com enorme adaptabilidade às condições. Desta vez, apesar do cenário ser outro, o setor permanece engajado em superar mais uma crise com seriedade e eficiência.

Nesta reportagem especial, a B.Forest procurou representantes de diversas empresas florestais para saber como a indústria está lidando com os atuais impactos da crise – e o que esperam do futuro. Confira!

O campo em casa

Para os profissionais florestais, já é tradição considerar a floresta – e as operações em campo – como o verdadeiro escritório do setor. Todavia, as atuais medidas de distanciamento social afastaram diversos colaboradores de suas funções presenciais, colocando-os em home office.

“Dentre as medidas preventivas adotadas estão a suspensão de eventos externos, internos e atividades com grande aglomeração de pessoas; cancelamento de todas as viagens a trabalho, cancelamento de reuniões presenciais e realização de reuniões virtuais; regra de distância mínima interpessoal de 1,5m em todos os ambientes; orientação de afastamento social no âmbito pessoal também recomendado; a intensificação dos procedimentos de limpeza e higienização e a promoção de amplas campanhas internas orientativas. A empresa também adotou, nos últimos dias, o trabalho remoto para a maioria das funções administrativas como forma de diminuir o volume de circulação de pessoas em suas dependências”, detalha Wagner Barbosa, diretor-geral da Arcelor – Mittal BioFlorestas.

A suspensão de eventos, viagens e visitas é uma medida já tomada por todas as empresas, que relatam ter a maior parte de seus escritórios administrativos fechados. Ainda, em muitos casos, profissionais em grupos considerados de risco (60 anos ou mais ou com problemas de saúde) foram afastados previamente, colocados em home office ou férias. Quanto aos colaboradores fora do grupo de risco, as companhias buscaram manter em campo ou em fábrica somente aqueles cujo trabalho não pode ser feito remotamente.

Isso significa que, no atual cenário, milhares de profissionais florestais estão tendo sua primeira experiência com home office – o que pode (ou não) vir a se tornar uma tendência no futuro. Graças à fluidez da comunicação digital, procedimentos como reuniões e negociações podem ser feitas por videoconferência ou outras ferramentas online. Por se tratar de uma situação sem precedentes, muitos profissionais reconhecem que o momento é de grande aprendizado para todos.

Para garantir a continuidade de suas operações, cada empresa adota seu próprio método (com seu sistema interno) para controle de ponto, divisão de tarefas, reuniões e mais. À medida em que se adaptam, comprovam novamente a alta versatilidade do segmento de florestas plantadas. Como tendência para o futuro, o home office ganha cada vez mais relevância na indústria.

“Se o home office irá mudar o futuro do trabalho, é difícil dizer. Mas o fato é que estamos aprendendo a trabalhar com esse modelo, avaliando o que é bom e o que não é. Muito provavelmente, essa crise trará mudanças no nosso comportamento”, analisa José Totti, diretor florestal da Klabin.

Status das operações

Segundo o diretor-geral da ArcelorMittal BioFlorestas, como a crise apresenta uma dificuldade enorme em planejar o curto prazo, o setor vê-se diante de um dilema entre manter uma estrutura pronta para reagir e reabastecer o mercado rapidamente ou reduzir custos fixos e investimentos.

Com a transferência de parte de seus colaboradores para o regime de home office, as empresas florestais têm adotado uma série de medidas para garantir a continuidade de suas operações (em campo e em fábrica) segundo todas as diretrizes de segurança para redução do contágio.

“Estamos seguindo todos os protocolos do governo Federal e Estadual, visando proteger os nossos colaboradores, seus familiares e as comunidades em que atuamos. Afastamos os profissionais identificados nos grupos de risco, implantamos a utilização de álcool em gel em ônibus, equipamentos e centenas de pontos fixos, higienizamos os ônibus a cada troca de turno, reduzimos a ocupação dos ônibus e restaurantes (áreas de vivência) a 50% da capacidade, implantamos termômetros para verificação de temperatura antes do embarque dos passageiros, bem como nas entradas das unidades, entre outras medidas”, explica Mauro Quirino, diretor de expansão florestal (SP) da Bracell.

A redução da ocupação dos ônibus a uma taxa de 50% ou menor é outra medida recorrente em todas as empresas entrevistadas. Ainda, incentiva-se que os colaboradores sentem-se próximos às janelas para maior circulação de ar, bem como recomenda-se a redução no uso de ar condicionado nos ônibus e máquinas florestais. O uso de termômetros para medição individual de temperatura na entrada de fábricas e meios de transporte é bastante difundido, apesar do produto estar em escassez em parte do território nacional. Na Cenibra, câmeras de termovisão utilizadas para inspeção de equipamentos agora fazem a medição de temperatura na entrada da fábrica e na hora do almoço.

A redução na mão de obra disponível em campo colocou as empresas florestais na delicada posição de decidir pela suspensão temporária de certas operações e/ou projetos em andamento. A Eldorado Brasil, por exemplo, relata não ter paralisado nenhuma operação até o momento, mesmo com a redução da mão de obra.

“A princípio, nós estamos mantendo nossas operações florestais normalmente (colheita, silvicultura, estradas, transporte) porque a fábrica continua produzindo, mas estamos tomando cuidados essenciais de acordo com as recomendações da OMS. Não temos nada parado hoje, mas estamos bastante preocupados. Avaliamos, sim, a paralisação de nossas atividades de plantio, ao menos daquelas atividades que hoje não são essenciais e podem ser postergadas”, diz Germano Vieira, Diretor Florestal da Eldorado Brasil.

Douglas Lazaretti, Diretor Florestal (Região Norte) da Suzano, relata que a empresa também não está com nenhuma operação ou fábrica paralisada no momento. “Temos avaliado criticamente as atividades essenciais para cada operação. Algumas que não são tão essenciais para o curto prazo são avaliadas para decidir se há outra forma de conduzi-las ou se pode ser necessário suspendê-las no momento. A ideia é manter em operação apenas o que é essencial para a continuidade do negócio e para o abastecimento da sociedade”, comenta.

Moacyr Fantini, diretor florestal da Veracel, confirma que a empresa também optou por não cessar nenhuma operação no momento. “Nada foi alterado. Todas as operações florestais – viveiro, silvicultura, colheita e transporte de madeira – seguem em ritmo normal e seguindo todos os cuidados necessários”. O foco da empresa tem sido em reforçar medidas de segurança que incluem, além de todas aquelas citadas acima, a antecipação da campanha de vacinação contra a gripe H1N1, produção de cartilhas de prevenção ao coronavírus e campanhas internas frequentes.

Na Cenibra, por sua vez, optou-se por não manter operações de novos plantios. “Interrompemos os novos plantios e focamos a mão de obra nas áreas mecanizáveis, cuidando de plantios novos e, se for possível fazer algo a mais com essa mão de obra, trabalharemos com isso”, conta Júlio Ribeiro, Diretor Industrial e Técnico da Cenibra.

Segundo Totti, diretor florestal da Klabin, a decisão da empresa foi baseada, em primeiro lugar, na saúde e segurança de seus colaboradores e, em segundo, pela continuidade de suas operações para que não faltem mercadorias essenciais à população.

“Em função disso, resolvemos que as atividades que neste momento não são fundamentais para o abastecimento de madeira nas fábricas iriam parar. Por isso, paralisamos toda a parte de pesquisa florestal neste momento, bem como inventário, preparo de solo, novos plantios, novas mudas no viveiro, etc. Na área de silvicultura, estamos apenas cuidando das florestas que foram implantadas há pouco, com processos como adubação e combate a formigas. Nos viveiros, estamos cuidando daquelas mudas que já estavam prepara – das”, detalha. Ainda, as atividades do Projeto Puma II estão temporariamente suspensas e serão retomadas futuramente.

Relações locais

As grandes fábricas e plantios florestais do setor florestal brasileiro estão inseridos em pólos produtivos distantes das capitais estaduais. Isso significa que, mais do que nunca, as relações institucionais entre o setor e o poder público são mais importantes do que nunca – e as empresas flores – tais têm buscado respeitar as diretrizes locais e cumprir seu papel social junto às comunidades.

“Temos tomado ações proativas para identificar as carências que temos principalmente nas comunidades próximas às nossas operações e fábricas. Estamos fazendo doação de máscaras, papel higiênico, fraldas e itens de higiene produzidos por nós, principalmente para a rede de saúde, visto que são itens que estão em falta não só no Brasil, mas no mundo”, comenta Douglas Lazaretti, da Suzano.

Nessa linha, uma parceria entre Suzano, Klabin e o Grupo Positivo com a Magnamed, fabricante brasileira de respiradores hospitalares, busca escalar a produção da Magnamed de cerca de 200 respiradores para 6.500 em um prazo de 60 dias de produção.

Auxiliando a fabricante em logística e obtenção de componentes importados, o objetivo é aumentar significativamente a produção nacional de um equipamento hospitalar essencial, cuja escassez causa graves danos à rede de saúde no mundo todo.

Junto às associações florestais e entidades representativas do setor, as empresas buscam otimizar as relações institucionais para manter suas operações de colheita, logística, transportes e fabricação em andamento. Até o momento, nenhuma das empresas entrevistadas (ArcelorMittal, Bracell, Cenibra, Eldorado Brasil, Klabin, Suzano e Veracel) relatou problemas de divergências com o poder público nos municípios em que atuam, em diversos estados e regiões brasileiras. Não há, até agora, qualquer restrição estatal sobre transporte de cargas ou obrigatoriedade de fechamento de fábricas.

Uma crise internacional

Longe de ser o único país afetado pela crise do Covid-19, o cenário brasileiro reflete o que estão vivendo diversas nações do mundo, especialmente os Estados Unidos e países da Europa e Ásia. Assim como as empresas florestais brasileiras, os players internacionais também têm adotado medidas de contenção do vírus.

Dentre essas empresas, de especial relevância são as fabricantes de máquinas e equipamentos florestais, muitas das quais estão localizadas em países afetados pela pandemia.

A fabricante finlandesa Logset, por exemplo, anunciou a parada de sua produção durante todo o mês de abril. A empresa decidiu por manter apenas os serviços de pós-vendas, entrega de peças de reposição e apoio ao cliente. No momento, a Logset planeja retomar produção e entregas a partir do dia 4 de maio.

A Komatsu Forest, por sua vez, optou por paralisar a produção de máquinas e equipamentos de 13 de abril a 21 de junho. Durante três semanas, as operações serão completamente suspensas. Após esse período, a Komatsu pretende retomar parte da fabricação e aumentar a escala de produção gradualmente. De acordo com comunicado, a fabricante também está focada em manter apenas os serviços de apoio ao cliente e fornecimento de peças até retornar à normalidade.

Além da suspensão parcial ou completa de operações por parte das empresas do setor florestal de outros players globais, as empresas brasileiras também estão atentas a outras possíveis mudanças na dinâmica do mercado internacional. Até o momento, os entrevistados relatam não ter uma avaliação concreta do possível impacto da pandemia nos preços de commodities, bem como nas importações e manutenção do supply chain de insumos necessários ao setor.

Contudo, uma preocupação reiterada pelos profissionais florestais é o fornecimento da sulfluramida, princípio ativo das iscas formicidas amplamente utilizadas no combate às formigas cortadeiras, maior praga do setor florestal brasileiro. A escassez do produto, majoritariamente fabricado na China, somada a problemas com licenciamento da substância, tem levado as empresas a realizarem testes com outras moléculas.

“Uma questão grave, anterior à crise do coronavírus, diz respeito ao fornecimento de sulfluramida. É um assunto que está sendo tratado até em nível governamental. Nós estamos em uma região com alta incidência de formigas cortadeiras. Já fizemos testes no passado com diversos produtos e nenhum foi tão efetivo quanto a sulfluramida. Ainda somos dependentes da sulfluramida”, diz o diretor industrial e técnico da Cenibra.

Germano Vieira, diretor florestal da Eldorado, afirma que a empresa ainda está realizando testes para suprir essa lacuna. “Temos feito experimentos, até com razoável sucesso, com uso de fipronil. Não sabemos se é o que vai ficar depois, esclarece.

Em termos de movimentações globais, outros fatores de interesse aos quais as empresas florestais brasileiras estão atentas incluem as variações cambiais, com atual alta do dólar, e seu reflexo no mercado internacional de produtos florestais.

O setor pós-pandemia

P ara os entrevistados, ainda é cedo para vislumbrarmos como será o futuro do setor – e de todo o planeta – após o arrefecimento da pandemia. A possível recessão econômica, a nível global e local, só poderá ser avaliada uma vez que esteja mais estabelecida a provável duração das atuais medidas de contenção do vírus.

“É difícil avaliarmos o impacto que o Covid-19 terá. Tudo dependerá do nível da crise que virá após este momento que estamos passando. Se for uma grande crise, todos seremos afetados de maneira importante. É só olharmos o que se passou em 2008, 2009 e ver quanto tempo levamos para nos recuperar. Se o tempo de duração desse momento for curto, talvez as consequências econômicas possam ser menores, e aí poderemos sair desse problema com rapidez, mas é muito difícil enxergarmos isso hoje,” analisa Totti, da Klabin.

Em carta aberta, o presidente da Ibá, Paulo Hartung, adverte que esta é a crise mais grave vivida pelas nossas gerações. “Por mais sofrimento e angústia que provoque, precisamos ter uma visão clara que qualquer crise traz aprendizados, oportunidades e a certeza que terá um fim. Todos temos que fazer nossa parte e mostrar que a melhor solução para uma crise global como essa é pensar e agir em comunidade”, ressalta.

Fonte: B.Forest – Edição Abril