Pinus. Foto: Berneck.

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Conversão de áreas florestais

Atualmente, é recorrente a conversão de áreas previamente usadas para cultivo de florestas em áreas de uso agrícola, tendência explicada por uma série de fatores. Nesta matéria, saiba mais sobre o tema e possíveis políticas para incentivo da silvicultura no Brasil

Em diversas regiões do país, pequenos e médios produtores de florestas cultivadas têm deixado a silvicultura para dedicar-se a culturas agrícolas. Essa tendência de conversão de áreas florestais em terras para agricultura vem sendo verificada há alguns anos e, de acordo com especialistas, pode ser explicada por uma série de fatores.

“É um conjunto de fatores, mas certamente o mais importante de todos é o preço da madeira, o valor baixo pelo qual o pequeno e médio produtor está conseguindo vender a madeira que produz hoje. Há outros aspectos, claro. Em determinadas regiões, boas terras com aptidão para culturas agrícolas ficaram muito valorizadas, o que incentiva o produtor à conversão. A soja e o milho, por exemplo, são culturas que têm sido bastante procuradas por esses produtores,” explica o especialista em silvicultura Nelson Barboza Leite, diretor da Teca e Daplan Gestão e Serviços Florestais.

Nelson destaca que essa é uma tendência que tem se verificado mais acentuadamente nos últimos cinco anos. Em áreas como no sul de São Paulo, por exemplo na região de Itapeva e Itapetininga, a prevalência do cultivo de soja e milho onde antes cultivava-se pinus e eucalipto ocorre majoritariamente devido ao baixo preço da madeira. Ainda, muitos produtores que já fizeram o primeiro corte de suas florestas, quando chega no segundo corte (no caso do eucalipto), a produção pode ser muito mais baixa. Se a rebrota não dá resultados satisfatórios, o produtor desiste da silvicultura, não vê possibilidade de dar continuidade àquele empreendimento florestal e decide dedicar-se a outra área mais rentável.

Com frequência, esses produtores não possuem os recursos necessários para uma operação de destoca e acabam por transformar a área que era dedicada ao plantio de florestas em área de pastagem. Quando o produtor tem condições de fazer a retirada do toco e a terra possui um valor alto, a conversão para a agricultura torna-se uma alternativa tentadora mesmo para aqueles que têm grande apreço pela atividade florestal.

“No início, a conversão de terras florestais em áreas agrícolas era realizada com equipamentos bastante improvisados, mas hoje já há um sistema de trabalho desenvolvido e máquinas mais apropriadas para a conversão. A tendência é que esses produtores busquem alternativas que baixem o custo operacional da conversão e, à medida que essas opções tornam-se mais disponíveis e viáveis no mercado, a conversão só tende a aumentar”, relata.

De fato, o pequeno produtor que não está próximo aos grandes centros consumidores tem se deparado com poucas opções para manter-se na silvicultura. Por manterem operações majoritariamente manuais ou semi-mecanizadas, o custo de exploração fica alto, fator agravado pelo fato de que muitos não têm como manter boas estradas de acesso e por isso possuem um alto custo de transporte.

O case Paraná

No Sul, principalmente no Paraná, a Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (Apre) relata que esse movimento não é novo, é algo que já vem acontecendo há alguns anos.

“O principal fator que motiva isso é a alta do preço dos grãos, tanto da soja, quanto do milho. Esse preço elevado dos grãos acabou motivando a conversão de área florestal para área agrícola. Além disso, houve também um aumento do preço da terra da área já preparada para agricultura em relação à área com floresta. A área agricultável teve uma valorização. Outro fator que merece destaque é a estagnação do preço da madeira. Ou seja, de um lado, um produto que não teve alteração de preço e vem se mantendo estável; de outro, um produto com aumento significativo de preço há alguns anos. Isso também incentivou essa conversão de área. Também vale destacar a própria força da certificação; um pequeno produtor não tinha capacidade de ter uma área certificada, pois esse processo custa caro. Todos esses pontos acabaram desmotivando os produtores, principalmente os pequenos”, explica Álvaro Luiz Scheffer Jr., presidente da Apre.

Apesar disso, a Associação argumenta que, em nenhum momento, o setor florestal deve competir com a produção de grãos, até porque toda a produção de grãos é voltada para alimentação.

“A conversão de área de floresta para a área agrícola é uma realidade e não assusta o setor, porque encaramos como algo normal de acontecer. O setor florestal vai precisar migrar das áreas planas, áreas agricultáveis, para áreas não agricultáveis, aquelas em que o relevo é mais difícil, como uma área dobrada, ondulada, de morro, em que o próprio aproveitamento da área é menor, porque a quantidade de Áreas de Preservação Permanente (APP) e de reserva legal em um local de relevo acentuado é maior do que em uma área agrícola”, diz o presidente da Apre. Para a entidade, o principal desafio é conseguir ter os mesmos níveis de produção e custos de uma área plana para uma área dobrada. O nível de mecanização também tende a ser mais difícil: “Hoje, na parte de silvicultura, conseguimos mecanizar quase tudo numa área plana. Porém, numa área dobrada, não conseguiremos o mesmo grau de mecanização. Por isso, o desafio realmente vai ser atingir os mesmos níveis de produção e de custos de produção em áreas que não permitem o cultivo agrícola”, acrescenta.

Um desafio complexo

Para Nelson Barboza Leite, o desafio é primeiramente uma questão de eventual valorização da madeira. Caso o preço de venda se torne mais atraente para esses produtores que hoje estão deixando a silvicultura, a conversão em áreas agrícolas continuará nos casos específicos em que a terra em questão tem um valor especialmente alto, com potencial particularmente promissor para alta produtividade agrícola. Contudo, uma reversão efetiva do cenário é difícil de vislumbrar.

“Considero difícil reverter esse cenário. A área que tem aptidão agrícola deve ser área agrícola. O setor florestal precisa se adaptar para conseguir trabalhar nessas áreas mais dobra – das, que não têm aptidão agrícola, áreas mais difíceis, com relevo ou com solo que não seja tão fértil. Nosso segmento precisará aprender a trabalhar nisso, porque essa vai ser a realidade. Dificilmente teremos uma inversão no futuro, porque a demanda de alimento não vai diminuir, sempre vai crescer. Por isso, o setor precisa se adaptar, se reinventar, buscar tecnologia e novos sistemas para mecanizar tanto a atividade de silvicultura, como a de colheita, algo que já está mais avançado nas áreas de colheita do que na silvicultura”, argumenta Álvaro Scheffer Jr., da Apre.

Nesse cenário, as associações representativas e o setor como um todo vão precisar se unir para desenvolver novos caminhos, novas tecnologias para aprimorar a eficiência e a produtividade nesses terrenos. A Apre destaca que essa realidade não vem acontecendo somente no Paraná, mas em outros Estados também. “A demanda por alimento não vai diminuir e a demanda por madeira também não, já que a procura por sustentáveis só tende a aumentar. Mas não adianta querer competir com o setor de produção de grãos. É preciso entender como produzir nessa nova realidade”, acrescenta o presidente da Associação.

Para Nelson Barboza, a tendência de conversão de pequenas propriedades florestais em áreas agrícolas não tem ou terá um grande efeito econômico sobre o setor florestal brasileiro como um todo, visto que o suprimento de madeira nas grandes indústrias já está garantido e bem planejado na maior parte dos grandes polos produtivos do país. Porém, trata-se de um efeito demonstrativo bastante negativo, que acaba por inibir o crescimento e a adesão de novos produtores à silvicultura.

Com isso, o profissional argumenta que há dois caminhos para os pequenos produtores que tencionam permanecer no setor florestal: para aqueles que estão próximos às indústrias, é preciso ter tecnologia para extrair e transportar essa madeira a custo competitivo e vendê-la mais facilmente; para aqueles que estão mais distantes, a saída seria transformar pequenas propriedades em grandes produtores, e a forma de fazer isso seria investir no cultivo de espécies de madeira mais rica, de maior valor agregado. Isso inclui tanto espécies exóticas (como o mogno africano e a teca) quanto nativas (como o paricá), ou mesmo espécies de eucalipto e pinus cuja madeira tem uma densidade muito alta para aproveitamento na indústria de celulose, mas pode ter alto valor por metro cúbico para outras aplicações (como o Eucalyptus pellita ou Eucalyptus microcorys).

Avanços em novos arranjos como plantios em Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) também podem tornar a atividade florestal viável em peque – nas e médias propriedades. Além disso, o compromisso assumido pelo Brasil na Conferência do Clima, em Paris, de plantar 12 milhões de hectares adicionais de florestas até 2030 pode ser um grande driver da silvicultura em pequenas e médias propriedades, especialmente para os produtores com áreas em bacias hidrográficas importantes e de crucial recuperação.

Apesar de não se tratar de um cenário completamente reversível, esses possíveis rumos apontados mostram que, caso haja políticas de incentivo e fomento organizadas e uma estrutura comunicacional capaz de levar ao pequeno produtor a informação e a técnica necessárias para recuperação dessas áreas e/ou plantio de espécies de madeira de maior valor agregado, ainda é possível manter a silvicultura como uma atividade de todos e para todos – e não apenas dos grandes players de relevância nacional e mundial.

Fonte: B.Forest